quinta-feira, 10 de abril de 2014

Insatisfação Contemporânea


Quem nunca olhou pro céu e se sentiu insignificante, diminuto, microscópico e principalmente preso?
Quanto mais eu leio, quanto mais procuro sobre questões de grandeza literalmente astronômica, mais fascinado e frustrado fico. Ao passo de que nós humanos desenvolvemos teorias e vislumbramos eventos tão gigantescos e fantásticos, anos-luz daqui; somos limitados a isso. Podemos apenas vislumbrar. Apenas inferir o que há lá fora. Calcular massas, órbitas, campos gravitacionais e afins. Isso me intriga muito e ao mesmo tempo me incomoda. Sou ansioso demais. Nasci na época errada.

Enquanto leio artigos e artigos, mais claramente me lembro da criança que eu era, decepcionada com a humanidade por, na passagem do ano 2000, ainda não haver carros voadores e espaço-naves pelo céu, como um enxame futurista, indo de uma cidade para outra sem se preocupar com fronteiras estúpidas.

Ainda me frustra o fato de sonhar com o futuro e saber não estar aqui pra testemunhá-lo. Creio que muitos partilham dessa opinião. Somos crianças olhando para uma extraordinária gama de possibilidades, através de uma fresta da porta de aço composta por crendices e superstições que minaram os que sonharam com tudo o que nós, hoje, sabemos ser real.

Eu queria ver as estrelas de perto.
Devia ter sido astronauta.

I'm no Supernova




-Manifesto da crise dos 21

E eu não só pareço estar cansado. Há tanto pra se preocupar, e nenhum tempo para nada disso. Em contrapartida, todos parecem lidar com o vortex com tanta maestria. Indo e vindo com facilidade. Aguentando, “se virando”. E a única virada que eu me vejo capaz é aquela logo depois que acordo, procurando pelos sagrados cinco minutos a mais de sono. Não que faça diferença. Esse é o problema, fazer diferença. Eu não vejo como.


Eu já estive “lá” e “aqui”. Já perdi e já ganhei, mas sem lucro algum no placar. Eu mato o tempo do jogo. Seguro a bola pra sustentar o empate. Sem vitória. Saboto a mim mesmo. Jogo no time adversário. E ainda assim, nunca fui expulso. Péssimos juízes. 


Quantas pessoas eu toquei durante esses anos? Quantas valeram, quantas não? É muito pra pensar, muitas variáveis pra considerar e nenhuma forma de resolução. Eu costumava ser bom em matemática. Eu costumava desenhar muito bem. Meu traço não é mais firme. Não escrevo mais à mão. Não faço mais cartas de amor. O que eu sei fazer?


Vinte e um anos. Quanta vida cabe nesse tempo? Quantas perguntas são possíveis fazer nesse espaço de tempo?, mais importante: quantas respostas posso encontrar? Quantas já deveria ter encontrado... O relógio é indiferente à vontade de qualquer um. Quanto mais à minha. Há muito futuro pela frente. A bagagem do meu passado é leve demais para aguentar o que está por vir. Eu não estou preparado. Não tenho botas para neve. Não tenho bússola. Não sei me guiar pelas estrelas. Mesmo que soubesse, o céu é nublado à noite e escaldante ao dia. Só sei onde fica o oeste porque é lá que o sol morre.


Eu vivo embriagado e entorpecido. Mesmo sem beber, sem usar drogas. O que é pior. Mas sei que sou bom com palavras. Metáforas e analogias. Brincar nas entrelinhas, construir uma rima. Melodia da mentira. Fácil, não? Até demais. Tanto que às vezes acho ridículo. E quanto do ridículo há lá fora, vendendo? Quantos estão fazendo sua vida e sustentando seus vícios criando outros vícios e outros viciados? Antes estivesse falando literalmente de drogas. É demais.


E é tão reconfortante escrever sobre o olho do furacão, sem apagar, nem nada a pagar. “Poema em linha reta”, sem omissões. Eu já omiti demais nesses vinte e um anos. Já banquei o cara solitário escorado no bar no início de festa, esperando a abordagem alheia, apenas pra representar. Contar algumas boas histórias retocadas com mentiras brancas ilustrativas. Também já fui o extrovertido que logo se entrosa numa mesa de bilhar, usando um sorriso e acendendo um cigarro de quem não tivesse isqueiro. Fácil demais, difícil demais. Eu sempre tenho fogo. 


Já fui tanto, já quis tanto. Em vinte e um anos meus sonhos gradualmente se deterioraram. Ou tornaram-se mais realistas. O que pra mim dá no mesmo. Quando criança, minha meta era as estrelas. Eu seria um astronauta. Mas alguns anos passaram e eu soube que não deixaria uma pegada da Converse na lua, ou em qualquer outro lugar. Baixei um pouco, só um pouco; o nível. Queria curar. Que presunção. Eu, médico? Seria como um leproso tratando das feridas abertas de outrem. Não daria certo.


O mesmo se fosse psicólogo. Meu criticismo e insensibilidade não trariam bem algum a qualquer um que precisasse de um bom conselho. Mas minha retórica é boa. Biomédico, então? Procurar a solução para os problemas nos bastidores, escavando entre uma experiência ou outra o fim de uma enfermidade. Estudar os males em sua raiz? Ridículo. Eu mal consigo varrer meu quarto direito. 


Então eu quis fazer dinheiro. Conhecer a máquina. Brincar com o fluxo que rege a vida de todos nós no fim do dia. Aprendi rápido demais as regras, os macetes. Nada que realmente trouxesse resultado, sem capital inicial. Não consigo patrocinar minhas idéias, e minha retórica não é boa o suficiente para convencer quem o faça. Desço mais um degrau, sem necessariamente significar um declínio. Vou à raiz. Às idéias. Escrever sobre tudo isso. Colocar o veneno pra fora, antes que adoeça por dentro. Foi como cheguei à escrita. À palavra. À verdade e à mentira. 


Tudo isso no grande e pequeno espaço de vinte e um anos. Parece pouco, parece muito. Questão de perspectiva apenas. A rotina é tênue demais para se ter a certeza de notar cada dia. Qual o meu talento? O que eu deveria fazer? Amanhã é segunda. Meus textos não estão prontos, meus personagens estão frustrados com o pai que não lhes deixa falar. Com a intolerância de um pai cujo orgulho pôs fim em tanto, e negligencia o novo. Com um pai que, com vinte um anos, acabou com uma amizade de quinze. 


Meus personagens têm razão. Mas de nada adianta, caso não lhes dê voz. Eu preciso escrever. Eu preciso pôr isso tudo pra fora. Romper com o prognóstico que desenhei sem querer. E eu não desenho mais como antigamente. Nessa torrente de aspirações, indagações e na densidade que faz minha cabeça pesar, vem o medo de explodir. Temo o colapso, pois eu não sou uma Supernova. Estou mais para Buraco Negro.